Dúvidas mais frequentes sobre mediação de leitura

 

 1. Eu posso pedir para as crianças fazerem atividades depois da leitura de um livro, como desenhos, teatros etc.?

Se o nosso objetivo é fazer com que as crianças se tornem leitoras e tenham uma relação prazerosa com os livros, precisamos criar situações onde a leitura não implica nenhum tipo de cobrança ou avaliação.

Por que? Vamos responder com outra pergunta: após assistir a um filme ou a um show, precisamos fazer um desenho ou responder a um questionário, para dizer aos outros o que achamos, para ver se realmente entendemos o filme? Quando pensamos em fazer uma atividade após a leitura de uma história, colocamos a leitura no lugar de um atividade que necessita de outra atividade para ser completa. Não que esteja “errado” realizar qualquer atividade após a leitura. Aliás, a questão não é o certo e o errado, mas apenas de reconhecer que a leitura de um livro em si já é uma grande atividade.

2. Então, como saber se a criança entendeu o que eu li?

Se o mediador está disponível e atento, ele perceberá o quanto as crianças gostaram ou não de um livro.  Se as crianças não dizem nada, ficamos com uma sensação de vazio, como se não tivéssemos feito a atividade “completa”. Mas cada criança pode interagir com as histórias de diferentes maneiras, algumas expressando mais as emoções, perguntas, descobertas ou idéias, outras ficando mais quietas…  Talvez possamos pensar que, muitas vezes, em uma leitura em voz alta, o que está em jogo não é somente o que a criança “entendeu ou não” da história, mas o que e como sentiu…  O que vai sendo percebido e demonstrado por meio do tempo, de nossa observação e do próprio diálogo com as outras crianças e com o mediador.

3. E se as crianças não gostam de algum livro ou de alguma história?

Não gostar de um livro, querer que a leitura pare no meio ou antes do final, não é um aspecto negativo nem sinal de que fracassamos! Ao contrário, percebemos que as crianças que passam a ter contato com os livros começam também a fazer escolhas, a decidir o que querem ou não querem ler. Ser leitor é isso também. É decidir o que lhe agrada ou não. Muitas vezes as crianças passam por fases em que querem o mesmo livro e em outras querem novidades o tempo todo.

4. Posso interromper uma leitura se as crianças pedirem?

Sim, às vezes as crianças, no meio de uma história, se desinteressam ou se cansam, querem trocar de livro etc. Isso é normal e faz parte. O mediador sempre pode interromper a atividade e conversar com as crianças, perguntar se querem escolher outro livro ou se elas preferem ler sozinhas.

5. Posso ler somente os livros que gosto de ler?

O mediador tem seu gosto literário. Da mesma maneira, para que as crianças também adquiram seu próprio gosto e façam suas escolhas, é preciso que tenham a oportunidade de conhecer a maior variedade de livros possível e que não lhes seja negado o acesso aos mais variados gêneros literários. Isso não impede que o mediador selecione e leia seus livros prediletos para as crianças, mas sem se esquecer de oferecer a diversidade do acervo. Algumas vezes é preciso ler repetidas vezes uma história que não lhe agrada tanto, mas que as crianças adoram. Se escolher apenas o que gosta podemos restringir o acesso à leitura, em vez de ampliá-lo.

6. E se as crianças rasgarem os livros?

Os livros são de papel. Não são apenas as crianças que podem danificar um livro. Os adultos também. Se os livros ficarem numa sala muito úmida ou com goteiras, se deixarmos cair café, eles também serão danificados. Enfim, livros não são eternos e se forem muito utilizados, ficam mais estragados, o que é um bom sinal.

Mas rasgar intencionalmente é outra coisa. É possível que, ao manusear o livro, a criança acabe rasgando-o por acidente. Geralmente os bebês e as crianças bem pequenas colocam o livro na boca, cheiram, mordem, batem, jogam no chão… essa é a maneira que usam para conhecer esse objeto novo que está à sua frente, do mesmo modo que fazem com brinquedos e outros objetos. Depois de algum tempo passam a transformar os próprios livros em brinquedos (aviões, chapéus, volantes, casas etc.). Outras vezes, rasgam porque disputam o mesmo livro, porque acham divertido “recortar as figuras” ou por algum outro motivo, como raiva, ciúme ou necessidade de chamar a atenção. Aos poucos as crianças começam a perceber que o livro também pode ser um brinquedo, já que contém histórias divertidas, engraçadas, tristes, alegres, bonitas etc. Elas entendem que as histórias têm uma seqüência e que todas as páginas têm sua importância. Ou seja, a criança que tem contato com os livros sabe o seu significado e passa a cuidar dele de forma adequada. Mas esse processo de significação do livro acontece, justamente, quando alguém lê para ela e permite que manuseie os livros. Quando os incidentes acontecem, com crianças de qualquer idade, o mediador pode conversar e mostrar que um livro é uma obra completa, que a história tem começo, meio e fim e que sem uma parte, seja um desenho ou uma página, a história fica incompleta. Depois ele deve explicar que vai retirar o livro para consertá-lo e pode, inclusive, convidar as crianças para ajudá-lo.

7. Posso ler para apenas uma criança dentro de um grupo com muitas crianças?

Sim, não há problema, desde que esteja atento ao grupo. Se os mediadores puderem atuam em duplas, trios ou pequenos grupos, conforme o número de crianças, isso facilitará o processo de vínculo e observação, pois proporciona que a leitura seja realizada de forma mais individualizada, o que pode ser muito prazeroso.

8. Como fazer a divisão dos livros por faixas etárias?

Quando passamos a ler para as crianças com regularidade e elas começam a ter acesso a muitos e diferentes livros, percebemos que o interesse de uma ou de outra é muito diverso. O que define se uma criança gosta ou não de um livro não se pauta pela idade das crianças, nem pela do mediador. As crianças pequenas, que ainda não sabem ler, gostam de livros ilustrados. Mas os grandes, que já sabem ler, também gostam. Os pequenos gostam de ouvir histórias mesmo que o livro não tenha ilustrações.

O assunto ou tema do livro pode ser mais ou menos adequado e a própria criança diz que gosta ou não, se quer continuar ouvindo ou não. Em vez de limitarmos o acesso das crianças aos livros, separando apenas os que o adulto define ser bom para ela, podemos mostrar e deixar à disposição uma grande quantidade de livros, de diferentes tipos, para permitir que as crianças conheçam e possam decidir o que querem. Os adultos adoram os livros considerados infantis. As crianças adoram os livros considerados para adultos, mesmo que seja apenas para carregar, folhear e fingir que já sabem ler. Da mesma forma que as crianças “fazem de conta” que são “mamãe e filhinho” ou que sabem “dirigir caminhões”, elas podem brincar de “saber ler”.

9. Como agir quando as crianças fazem perguntas que o mediador não sabe responder?

Os livros e as histórias podem trazer palavras e situações novas, ampliar o diálogo e fazer com que as crianças perguntem muitas coisas. É importante o mediador aceitar o fato que não sabe e nem pode saber sobre todas as coisas. Essa é uma constatação de sua realidade e é, a partir daí, que pode transformá-la, pois ao procurar se informar, pesquisando a resposta, estará ampliando seus conhecimentos e seu repertório também. Portanto, não há qualquer problema em admitir o desconhecimento de um assunto, desde que o mediador explique às crianças que vai pesquisar e trazer a resposta no próximo encontro.

10. Qual o espaço ou local mais adequado para a mediação de leitura?

A mediação de leitura é realizada em um determinado espaço físico, organizado e preparado para se tornar um local agradável, onde as crianças se sintam confortáveis e à vontade para manusear os livros, locomover-se, aproximar-se do mediador, ler e ouvir a leitura. Sempre que o mediador estende o tapete ou o lençol e coloca sobre ele os livros e as almofadas, as crianças passam a entender o significado desse momento, pois o ambiente fica mais aconchegante, e elas associam a hora da leitura com uma situação informal e agradável. Porém, não existe um padrão de espaço físico para o desenvolvimento da atividade, uma vez que os mediadores atuam em diferentes instituições e locais. A mediação pode acontecer mesmo que o local não seja ideal.

Algumas instituições oferecem a possibilidade de um local fixo: uma sala com tapete, almofadas e estantes que permitem expor os livros de modo que as crianças vejam suas capas. Onde não há local fixo, a leitura pode acontecer no mesmo espaço em que se desenvolvem outras atividades, como a brinquedoteca, o refeitório, a quadra de esportes, a sala de aula. Em hospitais, a atividade pode ocorrer no saguão, em salas de espera, em corredores ou nos quartos onde as crianças estão internadas ou sendo submetidas a algum procedimento. Em espaços públicos e abertos, como parques, jardins e praças, pode ser escolhido um lugar sob uma árvore, sob uma marquise, sobre a grama; abre-se o tapete, onde são colocados os livros e as almofadas, preparando o espaço para a atividade.

* Texto baseado na publicação: “Biblioteca Viva – Fazendo História com Livros e Leituras” – Fundação Abrinq.

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